Indígenas invadem terminal portuário de multinacional do agronegócio em Santarém

Liderança indígena explica motivos da invasão ao terminal de multinacional Indígenas das região do baixo, médio e alto Tapajós, que há 31 dias bloqueiam...

Indígenas invadem terminal portuário de multinacional do agronegócio em Santarém
Indígenas invadem terminal portuário de multinacional do agronegócio em Santarém (Foto: Reprodução)

Liderança indígena explica motivos da invasão ao terminal de multinacional Indígenas das região do baixo, médio e alto Tapajós, que há 31 dias bloqueiam o acesso de veículos ao complexo portuário de Santarém, no oeste do Pará, invadiram o terminal da multinacional do agronegócio (Cargill) na madrugada deste sábado (21). ✅ Clique aqui e siga o canal g1 Santarém e Região no WhatsApp A decisão, de acordo com os indígenas, foi tomada por falta de resposta do governo federal à principal reivindicação do movimento, que é a revogação do decreto assinado pelo presidente Lula em 28 de agosto de 2025. A invasão também foi motivada pela ordem de desocupação no prazo de 48 horas (a partir da notificação) da área onde o protesto é realizado. Eles foram notificados por um oficial de justiça às 08h de sexta-feira (20). "Nossa decisão não foi impulsiva nem violenta. Foi construída coletivamente, a partir da escuta dos mais velhos, de análises jurídicas e políticas e da indignação diante do Decreto nº 12.600, assinado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (...). Estamos aqui porque defendemos o direito de existir. Durante trinta dias aguardamos posicionamento oficial do Governo Federal", diz trecho da carta aberta do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns. O CITA diz que solicitou diálogo com a Presidência da República, a Casa Civil e o Ministério dos Transportes sobre os impactos do decreto nos territórios indígenas e nas comunidades tradicionais atingidas pelo chamado "Arco Norte", mas que não houve resposta efetiva até este sábado. Indígenas mantém ocupação na área portuária de Santarém-PA Coletivo Apoena Audiovisual Em rede social, a liderança indígena Olisil Oliveira também explicou os motivos da invasão, que segundo ele, ocorreu pacificamente, e afirmou que os indígenas só deixarão o local quando presidente Lula revogar o decreto. "E essa ocupação aconteceu de forma pacífica, aonde os trabalhadores foram tirados, tiveram a oportunidade de pegar seus pertences e sair daqui. Em nenhum momento houve agressão a esses trabalhadores. E a gente vai continuar aqui até o presidente revogar o decreto", disse Olisil Oliveira. Imagens do circuito interno da multinacional mostram que houve vandalismo, inclusive com quebra de câmeras da empresa durante a invasão. (veja no vídeo abaixo) Imagens do circuito de segurança mostram invasão de indígenas Na quinta-feira (19), indígenas usaram quatro barcos para chegar até uma balsa que foi interceptada no porto da Cargill. Alguns manifestantes chegaram a subir na balsa com faixas exigindo a revogação do decreto 12.600 e em defesa do Rio Tapajós. O objetivo do ato, segundos os indígenas, foi chamar a atenção do governo federal e da sociedade para os impactos da transformação dos rios amazônicos em corredores de exportação. (veja o vídeo abaixo) Manifestação dos indígenas dura 29 dias e cobra revogação de decreto Plano de emergência Por meio de nota, a Cargill disse que na noite de sexta-feira (20), sofreu duas ações violentas promovidas por manifestantes atingiram os ativos da empresa. A primeira, no escritório central da empresa, em São Paulo (SP), onde um grupo de pessoas vandalizou a fachada do edifício. Horas depois, o terminal portuário de Santarém (PA), que há 30 dias tinha sua portaria de caminhões bloqueada por grupos indígenas, foi invadido pelos manifestantes. Segundo a Cargill, o plano de emergência foi imediatamente acionado e os funcionários que estavam no local, diante da ameaça à sua integridade, procuraram abrigo em local fechado até que pudessem ser evacuados de forma segura. A empresa informou que o terminal segue ocupado e com fortes indícios de vandalismo e depredação de equipamentos, e que suas operações estão sendo impactadas desde o início do protesto. "Desde o início das ações, a Cargill vem reiterando seu respeito ao direto manifestação e a despeito de não ingerência sobre a pauta apresentada, segue tendo suas operações impactas e, nesse momento, integralmente interrompidas", disse a Cargill. Em relação a desocupação, a empresa disse que segue em contato com as autoridades para que as providências sejam tomadas de forma segura. Nota à imprensa O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) disse que reconhece e defende o direito à manifestação, como a realizada por povos indígenas em Santarém, e vem, desde então, prestando esclarecimentos sobre os procedimentos em andamento no âmbito do Ministério para a região, além de buscar a negociação para a liberação da área ocupada em instalações de uma empresa no porto do município. Disse ainda que em atenção ao cenário, solicitou ao DNIT a suspensão do processo de contratação dos serviços de dragagem. O MPor também esclareceu que as comunidades que utilizam o rio Tapajós em seu cotidiano serão devidamente consultadas sobre eventual processo de concessão dos serviços hidroviários, tão logo haja estudos técnicos aprofundados sobre o tema. "Qualquer decisão futura dependerá do cumprimento integral das exigências legais, ambientais e sociais, incluindo a realização de consulta livre, prévia e informada às comunidades, conforme estabelece a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT)", afirmou o Ministério. Em relação ao Decreto nº 12.600, o Ministério afirma que o documento não autoriza obras nem promove a privatização da Hidrovia do Rio Tapajós. Trata exclusivamente da realização de estudos técnicos acerca de uma possível concessão dos serviços de navegabilidade, e que os estudos são, inclusive, fundamentais para subsidiar o próprio processo de consulta às comunidades. Afirma que o debate sobre eventual modelo de concessão somente poderá ocorrer após a conclusão dos estudos, que devem embasar, de forma transparente e fundamentada, o processo de diálogo. Lembrou que o Governo Federal instituiu Grupo de Trabalho Interministerial, com a participação de órgãos federais e de representantes indicados pelos povos indígenas da região, para organizar e conduzir o processo futuro de consulta. E que foi realizada reunião em Santarém com os manifestantes, coordenada pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI), marcando o início efetivo das atividades do Grupo de Trabalho. Segundo o MPOR, o transporte de cargas pelo Tapajós já é expressivo há décadas e movimentou, em 2025, cerca de 15 milhões de toneladas, o equivalente a um comboio de barcaças por dia, evitando a circulação diária de quase mil caminhões nas estradas da região. E destaca que a hidrovia também é fundamental para garantir a segurança do abastecimento da população. A via é utilizada para o transporte de combustíveis e outras cargas essenciais ao suprimento de grandes cidades do Pará, além de atender comunidades não plenamente alcançadas por rodovias. "O Governo Federal mantém a convicção de que os projetos em andamento para ampliar a participação do transporte fluvial na matriz logística do país representam uma solução sustentável e adequada, contribuindo para que o Brasil cumpra os compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Paris", disse o Ministério. Leia também: Indígenas ocupam prédio de empresa do agronegócio em protesto contra projeto de dragagem de rio no PA Após 14 dias de ocupação do porto de Santarém, indígenas bloqueiam estrada de acesso ao aeroporto Indígenas liberam estrada de acesso ao aeroporto de Santarém TRF1 revoga decisão de plantão judiciário e mantém ordem de desocupação do porto de Santarém Ibama recomenda manutenção da suspensão de qualquer iniciativa de dragagem no Rio Tapajós VÍDEOS: Mais vistos do g1 Santarém e Região